Citação

"A felicidade não lhe é proporcionada por ninguém.
Ela encontra-se somente no próprio esforço
Em revelar o tesouro das profundezas de sua vida, e
se poli-lo cuidadosamente,
Desenvolverá a coragem e a esperança,
Ao longo do caminho."

Pensamento budista - Referência: Sandro Ribeiro


segunda-feira, 26 de maio de 2008

Morrida de saudades

Ref. imagem: somentebia.blogs.sapo.pt

Clique e leia, Márcia Frazão, Morrida de Saudades, toda colorida!!


Sei que está meio 'tétrico' por aqui esta semana, mas aprenda comigo. Na lida da vida dos olhos meus *, estamos despertos, envolvidos(as) em um Poder Maior, e nada acontece por acaso.
Depois de trilhões de zoadas nos tarôs e i-ching, vou no trote... do cavalo baio, alazão da Noite, cujo nome é Raio, Raio de Luar.**
Escrevendo...

* e ** Cancioneiro Popular: Benvinda, Chico Buarque e Viagem (desconheço o autor), mas tem que ser com Alaíde Costa.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

VIDA...MORTE...VIDA

Por NÔ/99

(Aos que se foram e ficaram)

Estão todos encantados...

Nas brumas de Avalon, ou neste triste coração.

São tão queridos

Estes nosso mortos vivos.

Acorde depressa, amigo! Não chore nas sepulturas...

A não ser que você queira que nasça uma flor

desta dor tão doída – a farpa colorida

nascida de um convívio que o tempo deixou prá trás...

A saudade sempre vem, não num dia marcado, um tempo de Cronos.

Mas vem quando a gente sente ...naquela hora exata

Que algo ficou além. Que ficamos muito aquém.

Simbolizam nosso sonhos, que a gente quer enterrar?

Ou talvez seja a vontade de a todos segurar?

Não será melhor ver onde é que ficamos

E onde queremos chegar?

A morte é a forma não negada de aceitar o inevitável

Daquilo que não se muda, ou não se consegue mudar.

Este dia, tão pesado

Lição de sabedoria...

Seria tão simples parar com esta mania

De colocar nestas perdas as coisas não concluídas.

Saudade...do que?

Quem foi fica com a gente...

Mas será que estamos prontos para acolher esta idéia?

E chorar os nossos mortos como quem prepara uma festa

uma celebração inusitada da vida que se transforma ?

Morte e Vida, E vida e morte...

Transformação interna de cada um

Ausência externa de quem partiu...

Tudo é a mesma coisa debaixo do sol,

como está no Santo Livro...


E debaixo do céu de anil.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

DOIDAS OU SANTAS?




A SERENATA
Adélia Prado

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobro
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
— só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?



- Revista O Globo – 13 de abril de 2008 – ELA DISSE
"Doidas e santas"
Martha Medeiros

"Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa." São versos de Adélia Prado, retirados do poema "A serenata". Ele narra a inquietude de uma mulher que imagina que mais cedo ou mais tarde um homem virá arrebatá-la, logo ela que está envelhecendo e está tomada pela indecisão – não sabe como receber um novo amor não dispondo mais de juventude. E encerra: "De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?"

Adélia é uma poeta danada de boa. E perspicaz. Como pode uma mulher buscar uma definição exata para si mesma estando em plena meia-idade, depois de já ter trilhado uma longa estrada, onde encontrou alegrias e desilusões, e tendo ainda mais estrada pela frente? Se ela tiver coragem de passar por mais alegrias e desilusões – e a gente sabe como as desilusões devastam - , terá que ser meio doida. Se preferir se abster de emoções fortes e apaziguar seu coração, então a santidade é a opção. Eu nem preciso dizer o que penso sobre isso, preciso?

Mas vamos lá. Pra começo de conversa, não acredito que haja uma única mulher no mundo que seja santa. Os marmanjos devem estar de cabelo em pé: como assim, e a minha mãe???

Nem ela caríssimos, nem ela.

Existe mulher cansada, que é outra coisa. Ela deu tanto azar em suas relações que desanimou. Ela ficou tão sem dinheiro de uns tempos pra cá que deixou de ter vaidade. Ela perdeu tanto a fé em dias melhores que passou a se contentar com dias medíocres. Guardou sua loucura em alguma gaveta e nem lembra mais.

Santa, mesmo, só Nossa Senhora, mas, cá entre nós, não é uma doideira o modo como ela engravidou? (Não se escandalize, não me mande e-mails, estou brin-can-do.)

Toda mulher é doida. Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem amor, a vida não vale a pena ser vivida, e dá-lhe usar nosso poder de sedução para encontrar the big one, aquele que será inteligente, másculo, se importará com nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais. Uma tarefa que dá para ocupar uma vida, não é mesmo? Mas além disso temos que ser independentes, bonitas, ter filhos e fingir de vez em quando que somos santas, ajuizadas, responsáveis, e que nunca, mas nunca, pensaremos em jogar tudo pro alto e embarcar num navio pirata comandado pelo Johnny Depp, ou então virar louca e cafetina, ou sei lá, diga aí uma fantasia secreta, sua imaginação deve ser melhor que a minha.

Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e me diga se ela não tem ao menos três dessas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois então. Também é louca. E fascina a todos.

Todas as mulheres estão dispostas a abrir a janela, não importa a idade que tenham. Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver até a Última Gota. Só as cansadas é que se recusam a levantar da cadeira para ver quem está chamando lá fora. E santa, fica combinado, não existe. Uma mulher que só reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que não deseje mais nada? Você vai concordar comigo: só se for louca de pedra.
Foto: virtualbooks.terra.com.br

Depois dessa, só conhecendo a poesia de Adélia Prado, é maravilhosa.

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